O texto não é fruto de um processo criativo de um escritor,mas a melhor organização possível dos relatos de um aspirante a voltar a seu ofício. Nascido e vivido nesta cidade paulistana, atualmente albergado, mostra fatos sob seu ponto de vista, sob sua própria ótica.
Vamos a eles: Muito feliz ao comprar uma bicicleta, já que não tenho o bilhete único e ando muito para esta re-inserção no mercado de trabalho. No entanto, ouço a assistente social dizer em alto e bom som no meio da sala num tom grave e autoritário: Esta bicicleta não vai ficar aqui!
Essa é a forma de um profissional responder a um acolhido? De um lado, pode ser uma maneira de esse técnico desabafar seu cansaço na lida diária com a população de rua, concordemos. Olhar pelo ponto de vista do outro é um grande desafio a nossa própria individualidade. De outro lado, profissionais da Assistência Social já devem ter naturalmente uma predisposição potencializada pelos estudos e experiências, de procurar exercer suaautoridade nos serviços nos
quais trabalham. No entanto, não podem se esquecer deseus valores e compromissos pessoais e profissionais. Vitimização seria colocar todos como vítimas das circunstâncias,então ponderação
faz-se necessário para todos os personagens envolvidos. Vejam só! Eu, pensandonuma boa alternativa para o meu transporte e recebo este tipo de reação. Isso, com certeza me faz lembrar que o albergue é uma solução provisória. Existiriam soluções definitivas?
Outro fato.
Paulistanos entram numa quarta-feira ensolarada deste outono às 7h30 da manhã para alguns minutos de possível tranquilidade e uma boa conversa sentados num dos bancos da grande mesa
de madeira deste espaço, agora chamado, Jardim da Luz. Menos de meia-hora de conversa e foram abordados por um dos seguranças de camisa amarela dizendo que até as 9 horas não é permitido sentar nos bancos. Os usuários do parque precisam fazer exercícios, caminhar...
Os homens acataram o aviso e começaram a andar pelo parque e viram várias pessoas sentadas nos outros bancos. Aceitando a ponderação de um deles, resolveram não questionar o fato, uma vez que foram ali para descansar e não para arrumar confusão. A denúncia alimenta a Justiça!
Precisamos ficar sempre atentos e não nos esquecermos de que temos que denunciar todo e qualquer ato de desrespeito aos direitos e não nos esquecermos de que somos cidadãos, sujeitos de direitos e deveres e devemos participar e lutar por eles sempre. Pessoas em situação de rua são cidadãos!
“Atenção para o refrão
É preciso estar
atento e forte
Não temos tempo
de temer a morte
Atenção para a estrofe
e pro refrão
Pro palavrão, para
a palavra de ordem”...
(Divino Maravilhoso
Gilberto Gil)
São Paulo, 25 de abril de
2011. Outono cinzento com
garoa e meio frio.
O inverno está chegando...